Então você acordou. Talvez não literalmente na madrugada com uma torrada na mão, mas acordou para a grande, desconfortável piada cósmica que é a existência. Parabéns? Ou talvez pêsames? A linha é tênue.
Vamos direto ao ponto, porque, sejamos honestos, o tempo está correndo e o destino final é aquele lugar onde o cronômetro para. Sim, a morte. A grande libertação... só que não. Libertação implica experiência, e a morte é o apagão definitivo. Nada de paz, nada de túneis de luz, nada de reencontros emocionantes com o vovô ou com seu hamster de infância. É o fim da transmissão. Tela preta. Silêncio absoluto e eterno. Entenda: o nada não é uma experiência agradável ou desagradável, ele simplesmente não é. Assustador? Talvez. Mas infinitamente menos ridículo do que acreditar em parques temáticos celestiais ou em caldeirões subterrâneos supervisionados por um sujeito com chifres.
Essa ideia, claro, é dinamite pura para o castelinho de cartas mental da maioria. Aquele construído com as muletas da fé, as fantasias reconfortantes sussurradas por líderes de túnica (ou terno caro) desde que nossos ancestrais mais peludos decidiram que um raio era um deus zangado e uma caverna era um bom lugar para se esconder dele. Ah, a caverna! O protótipo da igreja moderna. O mesmo princípio: um bando assustado, fugindo de algo que não entende (predadores noturnos, tempestades, a própria finitude), liderado por um "macho alfa" um pouco menos apavorado (ou mais esperto), que promete proteção em troca de... bem, você sabe. Lealdade. Recursos. As melhores fêmeas. Nada mudou muito, só adicionamos Wi-Fi e dízimo no cartão.
A religião, meus caros, é o medo ancestral embalado para presente. É o eterno retorno à mentalidade do macaco acuado, buscando segurança no grupo e numa figura paterna imaginária no céu. É a recusa infantil em aceitar que, talvez, só talvez, estejamos sozinhos nessa rocha molhada girando no espaço. E que o "mal" não é um demônio com tridente, mas a própria natureza indiferente, a doença aleatória, a maldade bem humana ou, simplesmente, a falta de sorte.
E por falar em solidão... já parou para pensar se toda essa gente aí fora existe mesmo? Ou são só projeções sofisticadas da sua própria mente? Aquele papo de solipsismo pode parecer coisa de filósofo desocupado, mas tem seu charme ácido. No fim do dia, a única experiência inegável é a sua. Você projeta, interpreta, sente. O universo? Uma tela onde seus pensamentos pintam a paisagem. Pessoas? Personagens no seu drama pessoal. Libertador? Talvez. Solitário? Definitivamente. Mas, ei, pelo menos você economiza em presentes de aniversário. Desapegar das "experiências externas" – viagens, relacionamentos, festas – não é depressão, é... otimização. É perceber que o único show que vale a pena assistir (porque é o único realmente disponível) acontece dentro da sua cabeça.
A grande ironia? Perceber tudo isso – a finitude, a ausência de sentido cósmico, a natureza ilusória da religião e talvez até da sociedade – não precisa ser um bilhete para o desespero. Pelo contrário. É tirar um peso monumental das costas. Não há dívida cármica, não há julgamento final, não há plano divino. A responsabilidade pela sua única, preciosa e ridiculamente curta vida cai inteiramente no seu colo. O que você faz com ela? A escolha é sua. Você pode continuar se escondendo na caverna metafórica, tremendo ao som dos trovões imaginários. Ou pode sair, encarar o sol (ou a chuva, tanto faz), sabendo que é só isso mesmo. E que, talvez, só talvez, isso seja suficiente.
Então, ajuste seus neurotransmissores, encare o abismo com um sorriso torto e tente não tropeçar nos próprios pés enquanto a orquestra do nada toca a última valsa. A responsabilidade, afinal, é toda sua. Divirta-se. Ou não. A indiferença cósmica não vai se importar de qualquer maneira.
Justamente pq somos poeira cósmica, deveríamos nos divertir mais ou não?
ResponderExcluirEu propondo um equilíbrio. Aproveitar a vida, sim, mas sem exageros que possam até prejudicar. É sobre viver com consciência, sabendo que o fim é certo, mas sem deixar que isso nos paralise. E também, investir em relações, em aprendizado e em cuidar de si e dos outros.
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