Outra vez? Sim, outra vez. O cosmos, em sua infinita indiferença, decidiu que você ganharia mais um dia neste carrossel enferrujado de consciência. Parabéns. Você sobreviveu à prática noturna – aquele mergulho glorioso na inconsciência que chamamos de sono, o único trailer honesto do longa-metragem final que nos aguarda. Alguns têm insônia, coitados. Querem tanto o ensaio geral, mas o cérebro insiste em mantê-los na plateia da vigília tediosa. A consciência, essa maldita insistente, cansa.
Mas não se preocupe, a maioria nem percebe o cansaço existencial. Estão ocupados demais perseguindo a bolinha colorida. O "homem comum" – essa criatura adorável e previsível – vive num estado de perpétua distração infantil. Dê-lhe um churrasquinho, um tapinha nas costas, um diploma na parede, um cargo com nome pomposo, uma homenagem cafona na frente dos colegas igualmente distraídos, e ele abana o rabo como um golden retriever bem-sucedido. A validação externa é o seu Rivotril diário. O ego, esse balão inflado com o hálito alheio, é o centro do seu universo minúsculo.
Para eles, o dia é uma sequência de tarefas programadas pelo Grande Adestrador: sociedade, moral, patrão, pastor, médico, algoritmo. Obedecer é respirar. São os escravos perfeitos porque nem sequer cogitam a possibilidade da liberdade; sentem até um certo prazer perverso em agradar o dono da coleira, seja ele um CEO bilionário ou um deus imaginário. Idolatram os ricos, os famosos, os poderosos, sem jamais entender a ironia suprema: você só idolatra aquilo que se sente fundamentalmente incapaz de ser. Pensamento de rico não gera pôster de rico na parede do quarto.
Ah, a "riqueza". Que piada. Acham que é sobre acumular papel pintado ou dígitos numa tela. Fofo. A verdadeira, única e talvez mais inútil forma de riqueza neste hospício é a seguinte: acordar e ter o poder absoluto de mandar o dia inteiro para aquele lugar. Fazer nada. Ou fazer tudo, desde que seja por escolha própria, não por obrigação ou para impressionar os outros símios. Riqueza é um calendário em branco e a ausência beatífica da necessidade de dar satisfação a quem quer que seja.
Mas quem alcança isso? Quase ninguém. Estão ocupados demais construindo as próprias gaiolas douradas: casamento, filhos, carreira, a busca incessante pela "metade da laranja" (como se alguém fosse uma fruta incompleta esperando um fungicida). Cada relacionamento, cada dependente, cada "projeto de vida" é mais um grilhão na sua liberdade já infinitesimal. Servem ao chefe, ao governo, ao cônjuge, aos filhos, ao cachorro... um ciclo interminável de servidão voluntária em troca de... migalhas de afeto e validação social? Patético.
"Carpe Diem", dizem os otimistas incuráveis, citando filmes com professores inspiradores. Aproveite o dia! Certo. Aproveitar para quê? Acumular mais memórias que se dissolverão no nada? Fazer mais coisas que serão esquecidas antes mesmo do seu corpo esfriar? Talvez o único "aproveitar" que faça algum sentido niilista seja este: usar o dia para solidificar o seu trono de Senhor. Não senhor de escravos – isso é para os inseguros que precisam de plateia. Senhor de si mesmo. Senhor do seu tempo insignificante. Senhor das suas escolhas irrelevantes.
Porque, no final das contas, quando a cortina cair e a luz apagar de vez, a única coisa que talvez (e é um talvez muito generoso) diferencie uma existência da outra não será o quanto você acumulou, amou ou foi aplaudido, mas o quão pouco você se deixou foder pelo sistema, pelas expectativas alheias e pelas ilusões doces que a maioria usa para não encarar o vazio.
Então, levante-se (ou não). O dia é seu. Uma tela em branco esperando a sua pincelada de indiferença cósmica ou de rebeldia silenciosa. Faça o que quiser. Ou não faça nada. O resultado final, afinal, é exatamente o mesmo. E há uma beleza terrivelmente ácida nisso.
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