Okay, vamos dissecar o Livro de Jó, essa peça teatral cósmica frequentemente elogiada por sua profundidade teológica, mas que, sob exame, revela uma moralidade tão questionável quanto a aposta que a desencadeia.
A cortina se abre numa espécie de "sala de reuniões" celestial. Lá está Deus, e quem aparece para a conversa? Satanás, aqui atuando menos como o príncipe das trevas e mais como um cínico promotor celestial, um "acusador". Deus, num momento que beira o orgulho parental cósmico, aponta para Jó: "Viste o meu servo Jó? Não há ninguém como ele na terra, homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal." Satanás, com o ceticismo de quem já viu de tudo, retruca: "Claro, ele te serve de graça? Tira tudo o que ele tem, e verás se não blasfema na tua cara."
E aqui, a narrativa dá uma guinada para o território do bizarro moral. Em vez de repreender o acusador ou simplesmente afirmar Sua onisciência sobre a fé de Jó, Deus aceita a provocação. Ele essencialmente diz: "Ok, faça o teste. Pode tirar tudo, menos a vida dele." Uma aposta. Uma disputa celestial cujo campo de jogo é a vida de um homem inocente. A integridade de Jó torna-se a moeda num jogo divino.
O que se segue é um catálogo de horrores infligido a Jó, com permissão explícita de Deus. Seus bens são destruídos, seus servos mortos, e – o mais chocante – todos os seus filhos e filhas são esmagados sob o desabamento de uma casa durante um banquete. Pense nisso: dez vidas humanas, aniquiladas como peças descartáveis num tabuleiro cósmico, para testar a lealdade do pai. A narrativa nem sequer pausa para lamentar essas mortes individuais; são meros adereços na provação de Jó.
Quando Jó, mesmo coberto de feridas dolorosas, ainda não blasfema, a aposta é intensificada. Satanás recebe permissão para atacar a saúde de Jó, mas não matá-lo. Seguem-se longos capítulos de lamento, dor e debates filosóficos com amigos bem-intencionados, mas teologicamente ineptos. Jó clama por justiça, por uma explicação, por uma audiência com Deus.
E a resposta de Deus, quando finalmente chega num redemoinho? Não é uma explicação, nem um pedido de desculpas pela aposta cruel. É uma demonstração avassaladora de poder: "Onde estavas tu, quando eu fundava a terra? Faze-mo saber, se tens inteligência." Essencialmente, a resposta é: "Eu sou Deus, você é Jó. Não questione." É uma tática de intimidação intelectual, uma evasiva grandiosa que evita a questão moral fundamental: por que o sofrimento foi necessário neste caso, como parte de um teste divino?
O "final feliz" é talvez a parte mais perturbadora sob uma ótica ética. Deus repreende os amigos de Jó, elogia a honestidade sofrida de Jó (que, aliás, chegou bem perto de questionar Deus), e então "restaura" suas fortunas. Ele recebe o dobro de tudo o que tinha... e dez novos filhos (sete filhos e três filhas, nomeadas e descritas como as mais belas da terra). A implicação é calafriante: os filhos perdidos foram, de alguma forma, "compensados" por um novo lote. Pessoas tratadas como bens fungíveis, substituíveis. A dor da perda, a singularidade de cada vida humana varrida para debaixo do tapete da restauração material e biológica.
O Livro de Jó, portanto, longe de ser uma simples meditação sobre o sofrimento, apresenta um Deus que se envolve em apostas com consequências devastadoras para os humanos, justifica o sofrimento inocente como um teste de lealdade (ordenado ou permitido por Ele mesmo), evita responder diretamente às questões morais que Sua própria ação levanta, e oferece uma "restauração" que trata seres humanos como commodities. É uma narrativa que, se despida de sua aura sagrada, se parece mais com a história de um experimento cruel do que com uma revelação de justiça ou amor divinos. A verdadeira lição talvez não seja a paciência de Jó, mas o perigo de adorar um poder que trata suas criaturas como peões em seus jogos cósmicos.
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