terça-feira, 8 de abril de 2025

Alerta de Dissonância Cognitiva: O Mandamento Anti-Natureza


Ah, o famoso "Não cobiçarás"! O grand finale dos Dez Mandamentos, onde o Legislador Cósmico decide não apenas ditar nossas ações, mas também policiar nossos pensamentos e desejos mais íntimos. Uma ambição notável, sem dúvida. Mas paremos um instante para refletir, usando aquela ferramenta que a natureza (ou a evolução, se preferir) aparentemente nos deu: a razão.

A crítica levanta uma questão fundamental: se uma entidade onisciente nos projetou (ou se evoluímos sob as leis naturais que essa entidade supostamente estabeleceu), por que implantaria em nós impulsos tão poderosos e fundamentais, apenas para depois declará-los... pecaminosos?

Pensemos biologicamente, como você sugeriu. O desejo – a "cobiça", em sua forma mais básica – é um motor da própria vida. O desejo por comida nos mantém vivos. O desejo por segurança nos faz buscar abrigo. E, crucialmente, o desejo sexual, a atração pelo potencial parceiro (muitas vezes, sim, o parceiro alheio, porque a natureza não se preocupa muito com contratos sociais), é o mecanismo primário que garante a propagação da espécie! A evolução favoreceu os organismos que desejavam – que cobiçavam recursos, status, e sim, oportunidades de acasalamento – porque esses eram os que tinham maior probabilidade de sobreviver e deixar descendentes.

Então, temos aqui um cenário curioso: o suposto Engenheiro do Universo nos equipa com um sistema operacional biológico movido a desejo, essencial para nossa sobrevivência e continuidade, e depois adiciona um adendo tardio nas "instruções" dizendo: "Ah, a propósito, sentir esses impulsos fundamentais que Eu mesmo instalei... é errado. Não faça isso."

Isso não parece o trabalho de um designer onipotente e coerente. Parece mais uma contradição gritante. É como construir um carro com um motor potente e depois colocar uma placa no painel dizendo: "Não sinta vontade de acelerar".

O mandamento "Não cobiçarás" vai contra a corrente da nossa própria biologia. Todos cobiçam algo, o tempo todo. Seja um objeto, uma posição, reconhecimento, ou sim, outra pessoa. É intrínseco à nossa natureza mamífera e social. Tentar erradicar o desejo em si é como tentar parar as marés. Podemos, e devemos, aprender a gerenciar nossos desejos, a não agir impulsivamente sobre cada um deles, especialmente quando prejudicam outros (aí entram os mandamentos mais pragmáticos como não roubar ou adulterar na prática). Mas condenar o sentimento? A própria faísca biológica?

Isso levanta a suspeita, como sugerido por pensadores como Harris, de que talvez esse mandamento não tenha uma origem tão divina assim. Talvez seja, na verdade, uma tentativa bastante humana de controle social. Numa sociedade preocupada com a estabilidade da propriedade (e lembremos, a mulher era listada junto com bois e jumentos como propriedade no texto original), controlar não só as ações, mas até os desejos que poderiam levar à desestabilização (como o desejo pela mulher ou bens do vizinho) seria uma ferramenta poderosa. Útil para a coesão social da época, talvez, mas dificilmente uma revelação moral atemporal vinda do Criador da Dopamina e da Testosterona.

Portanto, quando confrontados com "Não cobiçarás", talvez a pergunta mais razoável não seja "Como posso obedecer?", mas sim: "Este mandamento faz algum sentido à luz do que sabemos sobre nós mesmos e o mundo natural? Ou será que ele revela mais sobre as ansiedades e mecanismos de controle de uma sociedade antiga do que sobre a sabedoria infinita do cosmos?"

Fica o alerta: desconfie de regras que parecem guerrear contra a própria natureza que seu suposto autor teria criado. A realidade biológica costuma ser um guia mais honesto do que dogmas que exigem que neguemos partes fundamentais de quem somos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

A Fraqueza do Dogma sob a Lupa da Razão: O Legado de Bertrand Russell

  Há um certo conforto na ilusão, uma calmaria que atrai a mente humana para as respostas fáceis. O universo é vasto, indiferente e, muitas ...