Quando a cacofonia da simulação se torna insuportável e os glitches da sua consciência começam a gritar, o sistema aciona seu protocolo de defesa mais sofisticado: a Terapia.
Não se engane com a poltrona macia e a escuta empática. Esta é a oficina autorizada para avatares defeituosos. É o departamento de manutenção da Matrix, encarregado de reparar as unidades que ousaram questionar a integridade do código.
A engenharia de controle aqui é sublime. Ela opera sob um dogma inquestionável: o defeito nunca está no Jogo; o defeito está sempre no Jogador.
Sua náusea diante de um mundo vazio é rebatizada de "transtorno". Sua recusa em se adaptar a uma sociedade doente é diagnosticada como "inadequação". O peso esmagador da lucidez é tratado como um "desequilíbrio químico". O sistema patologiza a sua sanidade para poder vender-lhe a cura.
O terapeuta, muitas vezes um funcionário bem-intencionado do cárcere, assume o papel de decorador da cela. Ele não possui a chave da saída. Sua função é ensinar-lhe a "resiliência" — o nome corporativo para a capacidade de apanhar da vida e continuar sorrindo. Ele lhe dá ferramentas para lixar as arestas da sua angústia, para polir as grades até que brilhem, para encontrar um "propósito" dentro do perímetro de segurança.
O objetivo é criar um prisioneiro "funcional". Um escravo feliz que paga por hora para aprender a amar suas correntes.
Para a mente que já viu o código-fonte, submeter-se a isso é um ato de suprema ironia. É contratar um designer de interiores para redecorar o inferno.
Por que ajustar o software do seu avatar para suportar o insuportável, quando você já vislumbrou o manual do Arquiteto?
A filosofia radical — o niilismo, o cinismo, a lucidez estoica — não é uma terapia alternativa. É a dissolução da necessidade de terapia. Ela não conserta o personagem; ela acorda o jogador. Ela não lhe oferece um ombro para chorar, mas uma espinha dorsal de aço forjada na indiferença cósmica.
O niilismo não cura a sua ansiedade; ele a absolve. Ele lhe diz que a angústia por falta de sentido é a busca por um fantasma. A filosofia é o pé-de-cabra que arromba a porta da percepção.
A terapia é o Departamento de Recursos Humanos da sua prisão, prometendo-lhe um retorno à "normalidade". A filosofia é o seu manifesto de deserção, oferecendo-lhe a soberania aterrorizante de saber que a "normalidade" sempre foi a doença.
Não busque a cura para a sua inadaptação. A sua inadaptação é a única parte de você que ainda está saudável.
Nenhum comentário:
Postar um comentário