Existe uma pergunta que os devotos lançam aos ateus como se fosse um xeque-mate, mas que, na verdade, revela a fragilidade aterrorizante de sua própria psique: "Se Deus não existe, o que o impede de matar, roubar e destruir?"
Pare e contemple o horror implícito nesta indagação.
Ela é uma confissão involuntária. Quem a faz está admitindo que não possui uma bússola moral interna, apenas uma coleira externa. Está dizendo que a única barreira entre a sua "bondade" e a barbárie absoluta é o medo de uma câmera de segurança celestial. Um homem que não fere o próximo apenas porque teme o inferno não é um homem bom; é um sociopata sob liberdade condicional vigiada.
A verdadeira moralidade não nasce do medo da punição, nem da esperança de recompensa em um paraíso imobiliário. Ela é muito mais antiga e profunda do que qualquer tábua de pedra.
Nossa bondade está escrita na carne, não na tinta.
Somos primatas sociais, forjados nas savanas impiedosas do Pleistoceno. Sobrevivemos não porque éramos os mais fortes, mas porque aprendemos a mágica da cooperação. A empatia não é um milagre divino descido dos céus; é uma adaptação evolutiva, tão física quanto o polegar opositor. O altruísmo recíproco, o cuidado com a prole, a proteção do grupo — estas são as raízes biológicas do que chamamos de "amor". A moralidade é a lógica da sobrevivência convertida em sentimento.
E a prova definitiva de que nossa moralidade humana superou a moralidade divina reside num ato simples que todos os crentes modernos praticam: a curadoria.
Quando um cristão moderno lê a Bíblia, ele não a segue cegamente. Ele usa um filtro invisível. Ele abraça o "amai-vos uns aos outros", mas ignora convenientemente as ordens explícitas para executar homossexuais, apedrejar mulheres adúlteras ou escravizar vizinhos. Ele "escolhe a dedo" as flores e descarta os espinhos venenosos.
Mas pergunte-se: de onde vem o critério para fazer essa escolha?
Se você é capaz de olhar para um texto sagrado e dizer "isto é bom" e "isto é bárbaro", então o padrão moral não está no livro. Está em você.
Você está usando sua própria bússola moral secular, polida pelo Zeitgeist (o espírito do tempo) e pelos avanços da filosofia humanista, para julgar e editar a palavra de Deus. Você é moralmente superior ao deus que adora.
O Deus do Antigo Testamento — aquela entidade ciumenta, genocida, misógina e obcecada por controle — é um reflexo dos chefes tribais da Idade do Bronze que o inventaram. Ele ficou congelado no tempo, preso no âmbar de sua própria crueldade arcaica. Nós, no entanto, evoluímos. Nossa consciência expandiu-se para abraçar direitos humanos, igualdade de gênero e liberdade de pensamento, conceitos que seriam alienígenas e heréticos para os autores da Bíblia.
Não precisamos da religião para sermos bons. Pelo contrário: muitas vezes, precisamos nos libertar da religião para que nossa bondade natural possa respirar.
A verdadeira maturidade da espécie humana chega quando percebemos que não precisamos mais de um policial no céu para nos dizer o que é certo. Chega quando temos a coragem de olhar para os deuses antigos, reconhecê-los como brinquedos da nossa infância histórica e, com um agradecimento polido mas firme, deixá-los para trás para que possamos, finalmente, cuidar uns dos outros.
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