A natureza, em sua economia brutal, não desenhou a mente da criança para o ceticismo. Ela a desenhou para a obediência absoluta.
Para um primata nascido em um mundo hostil, a dúvida é uma sentença de morte. Se um ancião grita "Cobra!", a criança que para para pedir evidências empíricas ou ponderar sobre a herpetologia é removida do pool genético. A seleção natural favoreceu, durante milhões de anos, o cérebro infantil que absorve a instrução da autoridade como uma verdade inquestionável. Esta credulidade não é uma falha de caráter; é um imperativo de sobrevivência.
Mas esta mesma "porta dos fundos", deixada aberta pela evolução para permitir a entrada de conselhos vitais, tornou-se a vulnerabilidade fatal da nossa espécie.
A religião é o "vírus da mente" que evoluiu para hackear essa porta aberta.
Ela se infiltra no sistema operacional da criança empacotada junto com o conhecimento prático. A mente jovem, desprovida de um firewall cognitivo, não possui ferramentas para distinguir entre "não beba veneno" (uma verdade física) e "se você não rezar, queimará para sempre" (um terror metafísico). Ambas as instruções são gravadas no hardware neural com o mesmo peso de realidade absoluta.
A prova de que a fé é um acidente de nascimento, e não uma descoberta da verdade, reside na Geografia do Dogma.
Olhe para o mapa-múndi. As religiões não se distribuem como o conhecimento científico. A gravidade é aceita tanto na China quanto no Brasil. A Tabela Periódica funciona no Irã e no Texas. Mas a "Verdade Divina"? Ela obedece rigorosamente às fronteiras políticas e à hereditariedade. A probabilidade estatística de que a única religião verdadeira do universo coincida exatamente com a religião dos seus pais é, racionalmente, nula. No entanto, é nisso que a vasta maioria da humanidade acredita.
Isso não é fé. É herança viral.
O ato de rotular uma criança pequena como "criança católica", "criança muçulmana" ou "criança comunista" deveria ser visto pela sociedade moderna como uma aberração. Uma criança não tem religião, assim como não tem opinião sobre política econômica macrofiscal. Ela tem apenas os pais que tem.
Colar esses rótulos antes que a criança tenha desenvolvido a capacidade de pensar é uma forma de amputação intelectual. É instalar o software da "Fé" — a glorificação de aceitar coisas sem provas — antes que o sistema imunológico da Razão tenha tido chance de se desenvolver.
A verdadeira proteção à infância não é apenas física; é cognitiva. É o dever sagrado de não preencher a mente virgem com os fantasmas dos nossos antepassados. É ensinar a criança como pensar, não o que pensar.
Deixar uma criança crescer sem dogmas, livre para explorar o universo e tirar suas próprias conclusões na idade da razão, é o maior ato de confiança que podemos ter na verdade. Se a religião fosse real, ela não precisaria abusar da credulidade de uma criança para sobreviver. Ela resistiria ao escrutínio de um adulto.
O fato de ela depender tão desesperadamente da doutrinação infantil é a confissão silenciosa da sua própria fragilidade.
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