É intelectualmente moda lamentar a chamada "era da pós-verdade", como se a praga da desinformação fosse uma invenção recente, nascida nos recessos anônimos da internet. Que diagnóstico tão curto de vista. A verdade, despida de confortos sentimentais, é que não estamos a testemunhar uma nova patologia da razão. Pelo contrário, apenas desenvolvemos uma tecnologia de transmissão mais eficiente para um dos mais antigos e virulentos vírus mentais que alguma vez infectaram a nossa espécie: a religião.
A desinformação não foi engendrada por anónimos ou políticos. A sua forma mais potente e resiliente foi refinada ao longo de milénios, não em laboratórios digitais, mas em desertos áridos e picos de montanhas, por homens que, numa audácia notável, afirmavam ter linha direta com o cosmos. A religião não é apenas uma campanha de desinformação; é o Paciente Zero. É o mais bem-sucedido meme, ou complexo de memes, que a história da cultura humana já viu.
Analisemos a sua mecânica de replicação com o desapego de um biólogo a examinar um parasita. Ela exibe todos os traços de uma operação de desinformação, embora com uma tecnologia mais primitiva:
A Hipótese Extraordinária Isenta de Provas: Toda a desinformação eficaz começa com uma alegação que assalta a imaginação, contornando as faculdades críticas para apelar diretamente à emoção. A religião elevou isto a uma forma de arte. "Um homem, morto há três dias, regressou à vida". "Um profeta ascendeu aos céus numa montaria alada". "Um universo de complexidade inimaginável foi montado em seis dias por um agente invisível". Estas são alegações de uma grandiosidade tal que a mera sugestão de pedir provas é vista como uma impertinência, uma mesquinhez de espírito. A sua função é precisamente essa: paralisar o ceticismo através do espanto.
Fontes de Dados Invioláveis e Não Verificáveis: Uma tática primária da falsidade é citar uma autoridade que não pode ser questionada. A religião institucionalizou esta falácia sob a forma de "escrituras sagradas". Trata-se de compêndios de textos, de autoria frequentemente anónima ou disputada, redigidos décadas, senão séculos, após os supostos acontecimentos. Estão repletos de contradições internas e de afirmações que entram em conflito direto com praticamente todos os domínios da ciência. No entanto, são apresentados como a palavra literal e inerente do arquiteto do universo. É o equivalente cósmico a basear a totalidade da física num único post de um blog anónimo, e depois declarar esse post imune a qualquer escrutínio.
A Repetição como Algoritmo da Verdade: O princípio de que uma mentira repetida com suficiente frequência adquire as vestes da verdade é fundamental tanto para a propaganda viral como para a liturgia religiosa. O sermão semanal, as orações diárias, os cânticos rituais — não são meras expressões de fé, são poderosos mecanismos de auto-reforço. Funcionam como um algoritmo que inscreve o meme religioso cada vez mais fundo nas vias neuronais, tornando a crença tão familiar que questioná-la torna-se cognitivamente difícil e emocionalmente penoso.
A Exploração da Psicologia Evolutiva: Os vírus mentais, tal como os seus análogos biológicos, prosperam ao explorar as vulnerabilidades do seu hospedeiro. A religião é uma mestra na exploração dos nossos medos e anseios mais profundos, produtos da nossa história evolutiva. Ela vende um antídoto para o terror da aniquilação pessoal, a angústia do acaso e o espetro de uma existência sem propósito. A promessa de uma vida após a morte, a ameaça da danação eterna e a reconfortante ideia de um plano cósmico são iscas emocionais de uma eficácia tremenda. Uma vez que o cérebro é fisgado por estas promessas, o seu poderoso viés de confirmação entra em ação, defendendo a crença que lhe traz consolo e ignorando ativamente montanhas de evidências em contrário.
O resultado desta campanha de desinformação milenar não é simplesmente a disseminação de uma crença factualmente incorreta. É algo muito mais corrosivo: a sistemática degradação da ferramenta mais preciosa da nossa mente para navegar a realidade — o pensamento crítico. A religião não se limita a espalhar uma falsidade específica; ela treina o cérebro para ser um receptor dócil e acrítico de todas as falsidades, desde que venham de uma fonte de autoridade e ofereçam conforto emocional. Ela ensina a virtude da fé, que é, por definição, a crença na ausência de evidências.
Portanto, quando nos lamentamos sobre a "pós-verdade", estamos a olhar para a febre e a ignorar a infeção. A batalha pela razão e pela verdade não começa com a refutação de um meme nas redes sociais. Começa com a aplicação corajosa e consistente do mesmo ceticismo que dedicamos a uma notícia duvidosa à mais antiga, reverenciada e poderosa de todas as falsidades. Começa com a heresia de questionar os "textos sagrados" com o mesmo rigor com que questionaríamos qualquer outro documento histórico.
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