Ensinaram-nos a segurar a tesoura antes mesmo de aprendermos a viver. Somos editores impiedosos da própria biografia, treinados para cortar a película da existência até que restem apenas os "trailers": o clímax, o êxtase, o confete caindo, o beijo sob o dilúvio cinematográfico.
A doutrina vigente sussurra que a vida real é feita apenas de picos. O diploma, o altar, o carimbo no passaporte. Tudo o que existe entre esses cumes — a vasta planície silenciosa onde realmente respiramos — é varrido para o chão da sala de edição. Chamamos isso de "tempo morto". A sala de espera entre dois milagres. A tela estática enquanto o cenário muda.
Vivemos em apnéia. Prendemos o ar na segunda-feira como quem mergulha em águas turvas, esperando emergir apenas na sexta à noite. Tratamos o presente não como uma dádiva, mas como um pedágio; uma taxa burocrática que pagamos para ter acesso a um futuro idealizado. O cotidiano — o tilintar da louça na pia, o zumbido do trânsito, a geometria banal de uma fila de banco — é visto como entulho temporal. Obstáculos no caminho da "vida de verdade".
Mas eis a tragédia shakespeariana da nossa era: a confusão entre o palco e os bastidores.
O Grande Espetáculo adora os "Eventos" porque eles são vitrines. A euforia é vendável, o extraordinário é "postável", o clímax gera dados. O cotidiano, contudo, é um herege silencioso: ele resiste à mercantilização. Ninguém vende ingressos para assistir ao tédio, e o silêncio não aceita anúncios.
A verdadeira revolução, portanto, não é sair à caça de mais dragões para matar. É a alquimia sutil de sacralizar o ordinário.
A vida não habita o topo da montanha, onde o ar é rarefeito e a vista é breve; ela mora na trilha, no cascalho sob as botas, no suor que escorre lento. A textura da realidade não é tecida com fogos de artifício, mas com a poeira dourada que valsa num raio de sol vadio numa tarde de terça-feira. É a cerâmica quente da xícara contra a palma da mão. É a percussão da chuva no asfalto. É a coreografia secreta das árvores conversando com o vento.
O despertar é o choque térmico de perceber que não existem "momentos especiais". Existem apenas momentos. E cada segundo, por ser uma espécie em extinção, carrega a densidade de um milagre.
Desprezar o tédio é rejeitar a própria argamassa da criação.
O iluminado não é aquele que flutua em êxtase místico, intocável. É aquele que descasca uma laranja com a mesma gravidade litúrgica com que um sumo sacerdote celebra uma missa. É aquele que compreendeu que a "sala de espera" é uma ilusão de ótica, pois não há outro lugar para onde ir. O destino é sempre o agora.
A liberdade final é a coragem de abandonar a esperança de que a vida "vai começar". É olhar nos olhos da sua terça-feira cinzenta — despida de trilha sonora, sem aplausos, sem plateia — e, encontrando a beleza crua do que é, sussurrar:
"Isto é tudo. E isto é o suficiente."
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