Bem-vindo ao deserto do real. Mas não se preocupe, colocamos grama sintética e ar-condicionado.
Você acorda e a primeira coisa que toca não é a pele de quem dorme ao seu lado, nem o lençol de algodão. É o vidro frio do smartphone. É o cordão umbilical luminoso que o conecta à Nave-Mãe. Antes de abrir os olhos para o sol, você precisa verificar se o mundo ainda está lá através da tela. Se o feed atualizou, então, cogito ergo sum: logo existo.
Vivemos a era da alucinação consensual.
Observe o seu café da manhã. Você não compra café; você adquire a semiótica do despertar. O grão é irrelevante; o que importa é a marca, a xícara rústica "autêntica" fabricada em massa numa fábrica chinesa, e a capacidade daquele líquido marrom de ficar fotogênico no Instagram. O sabor é secundário. Na verdade, se você beber o café sem postar uma foto dele, será que a cafeína faz efeito? Ou será que o seu corpo biológico só consegue digerir o que o seu avatar digital aprovou primeiro?
Nós assassinamos a realidade e fomos viver dentro do mapa.
Veja os turistas. Eles não viajam para ver a Torre Eiffel. Eles viajam para verificar se a Torre Eiffel é igual à foto que viram no Google Imagens. Eles chegam lá, viram as costas para o monumento real, levantam o celular e tiram uma selfie. A Torre de metal enferrujado e parafusos reais é decepcionante, suja, velha. A Torre na tela do celular, com filtro de saturação e contraste, ah... essa sim é a Verdade. O turista volta para casa satisfeito, não por ter visto Paris, mas por ter produzido a prova digital de que ele, de fato, é um personagem jogável neste cenário.
Somos colecionadores de experiências em celofane.
A ironia suprema da nossa era é a "volta à natureza". O cidadão moderno trabalha 10 horas por dia em um escritório hermético, sob luzes fluorescentes que zumbem como moscas elétricas, para ganhar dinheiro suficiente para pagar uma academia. Lá, ele corre numa esteira — uma estrada que não vai a lugar nenhum — para queimar a energia que acumulou comendo comida processada que prometia ser "natural".
Depois, ele volta para casa e, para relaxar, abre um aplicativo que toca "sons de chuva na floresta". Ele paga uma assinatura mensal para ouvir o som da água caindo nas folhas, enquanto lá fora, na janela real, está chovendo de graça. Mas a chuva real é inconveniente. Ela molha, é fria, é imprevisível. A chuva do aplicativo é asséptica, controlável, tem volume ajustável e não estraga o penteado.
Preferimos o holograma. O holograma é seguro. O holograma não nos fere.
O amor tornou-se um algoritmo de compatibilidade. O sexo tornou-se pornografia de alta definição. A amizade tornou-se engajamento. Tudo o que era sólido desmanchou-se em pixels. Vivemos num shopping center infinito onde compramos identidades pré-fabricadas como quem escolhe iogurtes na prateleira. "Hoje serei o rebelde minimalista", "Amanhã serei o empreendedor estoico".
Mas, de vez em quando, há uma falha na Matrix.
Um momento de tédio insuportável na fila do banco. A bateria do celular que morre no meio do transporte público. Um silêncio constrangedor num jantar. E de repente, o terror: a realidade nua e crua tenta entrar. Sem filtros. Sem edição. Sem trilha sonora.
É nesse momento, quando o entretenimento falha, que você sente o vazio cósmico do cenário de papelão.
A rebelião, meu caro prisioneiro voluntário, não é destruir o sistema. O sistema adora ser atacado; isso vira notícia e vende jornal. A rebelião é rir da piada.
É olhar para o seu tênis de corrida ultra-tecnológico, que custou um salário mínimo e foi desenhado para maratonas que você nunca correrá, e rir da absurda teatralidade de tudo isso. É comer uma maçã não porque é "fitness", mas porque ela tem gosto de sol e terra.
O despertar é perceber que você está num parque de diversões temático chamado "Século XXI". Os monstros são de borracha, o dinheiro é de mentira e o prêmio é ilusório.
Então, divirta-se no carrossel. Mas, por favor, pare de tentar comer o algodão-doce de plástico. Ele só dá cáries na alma.
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