Desde cedo, você entendeu que a sociedade não era uma comunidade, mas um imenso e ofuscante hipermercado aberto 24 horas. Você não nasceu como uma pessoa, mas como um "cliente em potencial". Sua tarefa não era viver, mas montar um "eu" convincente a partir dos produtos dispostos em prateleiras infinitas, um processo conhecido como "socialização".
No "Corredor das Ideologias", você podia escolher entre sistemas de crenças pré-embalados, disponíveis em pacotes para a família toda ou em porções individuais para consumo rápido. Na "Gôndola das Carreiras de Prestígio", profissões brilhantes e bem-acabadas eram vendidas como a solução para o seu vazio existencial — os efeitos colaterais, como ansiedade e burnout, vinham em letras minúsculas no verso da embalagem.
Havia o "Quiosque das Opiniões do Momento", sempre lotado, vendendo posicionamentos morais com data de validade curtíssima. E, claro, a popular "Seção de Estilos de Vida", onde você podia adquirir hobbies, estéticas e personalidades inteiras para colocar no seu carrinho. Seu carrinho de compras era a sua identidade.
A regra tácita do Grande Mercado era que todos deveriam, a todo momento, inspecionar os carrinhos alheios. O valor de uma pessoa era medido pela qualidade e pela raridade dos itens em seu carrinho. Um diploma de uma universidade de grife. Um relacionamento fotogênico. A opinião certa sobre o assunto da semana. A vida era uma competição silenciosa e brutal de consumidores. O objetivo era chegar ao "Caixa Rápido da Felicidade" com o carrinho mais admirável de todos.
E você jogou o jogo. Encheu seu carrinho com esforço e dedicação. Adquiriu os produtos certos, seguiu as tendências, colecionou as validações como quem coleciona selos. Seu carrinho estava pesado, estava impecável, e você o empurrava com a coluna curvada pelo esforço de ser interessante.
Finalmente, exausto, você chega ao caixa. A operadora, uma entidade anônima com o rosto do tédio universal, passa seus produtos. O preço que aparece na tela não é em dinheiro. É em paz de espírito, em espontaneidade, em horas de sono, em autenticidade. O custo é a sua vida não vivida. E você não tem como pagar.
Em pânico, você percebe que faliu. Dedicou toda a sua energia a adquirir bens que lhe custaram a si mesmo.
É então que a operadora, sem mudar de expressão, lhe estende um pequeno pedaço de papel. Não é a conta. É um cupom de desconto. Nele, em letras garrafais, está escrito: "O VAZIO. 100% de desconto em todas as expectativas não solicitadas. Válido por uma vida inteira."
A princípio, parece um insulto. Um cupom para nada? Depois de tanto esforço? Mas então você olha para o seu carrinho abarrotado, para o peso de cada item, para a exaustão de ter que defendê-los e exibi-los. E você entende. O cupom não oferece a ausência de valor. Ele oferece a ausência de dívida.
Este é o grande dividendo social. A permissão para abandonar o carrinho.
Com um alívio que você jamais imaginou ser possível, você o solta. Ele rola para longe e bate em uma gôndola de angústias da moda. Você se vira e, pela primeira vez, caminha para fora do mercado com as mãos vazias e a postura ereta.
Lá fora, no estacionamento sob um céu vasto e indiferente, você encontra outros. Pessoas que também abandonaram seus carrinhos. Ninguém pergunta sobre sua carreira, suas opiniões ou seus hobbies. Em vez disso, vocês falam sobre o cansaço, sobre o alívio. Vocês mostram as cicatrizes que os produtos da "prateleira da perfeição" deveriam esconder. Vocês riem. Não o riso performático dos corredores, mas uma gargalhada genuína, que ecoa no espaço aberto.
Você percebe que a verdadeira sociedade não estava lá dentro. Estava aqui fora. A comunidade não é formada por aqueles que compram as mesmas coisas, mas por aqueles que tiveram a coragem de parar de comprar. A conexão mais profunda não nasce do que vocês têm em comum no carrinho, mas do que vocês, juntos, tiveram a coragem de abandonar.
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