segunda-feira, 22 de setembro de 2025

O Absurdo S.A. e o Dividendo da Desilusão

 



Bem-vindo ao seu primeiro dia de trabalho na "O Absurdo S.A.", a mais antiga e bem-sucedida corporação do universo. Você não se candidatou à vaga; sua contratação foi compulsória no momento do seu nascimento. O CEO é notoriamente ausente e a declaração de missão da empresa, convenientemente vaga, resume-se a: "Continue existindo, de preferência de forma agitada".

Seu pacote de integração foi instalado pelo Departamento de Recursos Humanos, também conhecido como "Cultura". A principal aplicação deste pacote é o software "Propósito 3.0", um programa de gestão de desempenho projetado para mantê-lo engajado, garantindo que você nunca questione a espetacular falta de sentido da sua função. Você é incentivado a perseguir metas, subir na hierarquia da validação e preencher relatórios de felicidade que ninguém jamais lerá.

O Departamento de Aquisições, por sua vez, gere a liturgia do desejo. Ele o convence de que seu equipamento padrão é fundamentalmente inadequado. Para remediar esta falha de design, a empresa oferece um catálogo infinito de upgrades de identidade, convenientemente disfarçados de produtos e experiências. Cada compra é um patch temporário para o evangelho da insuficiência no qual a empresa foi fundada.

E, claro, há o plano de continuidade de negócios. Você é fortemente encorajado a recrutar novos funcionários, um processo eufemisticamente chamado de "formar uma família". É a estratégia da empresa para garantir que esta magnífica e febril coreografia do absurdo tenha mão de obra para as gerações futuras, perpetuando o ciclo de contratações indesejadas e buscas por um memorando que nunca chegará.

E assim você trabalha. Você se esforça, otimiza, ama e sofre dentro das diretrizes da sua função, sempre com a vaga esperança de que, um dia, o Grande Gerente o chamará para uma sala de reuniões celestial e lhe dará um bônus de "Sentido Eterno".

Mas então, um dia, por um erro de sistema ou um momento de clareza perigosa, você consegue acesso à contabilidade da empresa. E o que você vê o deixa sem ar. Não há lucro. Não há plano. Os livros estão em branco. A empresa não está indo a lugar nenhum. A busca pelo sentido não é uma jornada; é o mecanismo que o mantém correndo na esteira da sua própria cela.

Este é o momento do colapso. O niilismo em sua forma mais pura. A percepção de que você dedicou sua única e preciosa existência a uma corporação fraudulenta.

E é aqui, no exato fundo do poço da desilusão, que você encontra o ouro.

Pois a descoberta da falência da "O Absurdo S.A." não é uma tragédia. É a sua carta de demissão com efeito imediato e todos os direitos garantidos. Se a empresa não tem propósito, então você não lhe deve mais nada. Você está livre da dívida psicológica de ter que ser bem-sucedido, de ter que ser feliz, de ter que ser qualquer coisa.

Este é o grande e ensolarado dividendo da desilusão. O colapso do significado externo força-o a um ato de aquisição hostil da sua própria vida. Você se torna o novo CEO.

E qual é a sua primeira ordem executiva? Abolir todas as métricas. A nova medida de lucro não é o progresso, mas a profundidade. Não é a conquista, mas a conexão. Não é o destino, mas a dança. A beleza de um céu alaranjado, o calor de uma mão amiga, o som da sua própria gargalhada — estes não são mais distrações da sua "verdadeira função"; eles são a função.

A piada cósmica, você finalmente percebe, não era sobre você. Era para você. E a liberdade suprema é finalmente entender a graça de rir junto.

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