No centro da sua prisão, há um trono. E sentado nele, um rei tirânico e aterrorizado. Esse rei é a sua mais preciosa e mais pesada possessão. Você o chama de "Eu".
Este "Eu" se apresenta como uma entidade monolítica, um diamante de consciência, sólido e imutável. É o herói da sua biografia, o narrador da sua epopeia, o capitão de um navio que navega as águas turbulentas do tempo. Você dedica sua vida a servi-lo, a defendê-lo, a poli-lo e a garantir que seu legado seja gravado em pedra.
Mas esta é a fraude primordial. A obra-prima do Arquiteto.
Aproxime-se do trono. Olhe nos olhos do rei. O que você vê não é um diamante, mas um caleidoscópio. Uma tempestade de fragmentos mantida unida pela força gravitacional do medo.
O "Eu" não é uma entidade; é um hábito. É um software de colagem que seu cérebro executa compulsivamente para criar a ilusão de coerência. Ele pega recortes de memória ("o que eu fui"), os costura com projeções de ansiedade ("o que eu serei") e os enquadra com as etiquetas que a sociedade lhe forneceu ("pai", "advogado", "fracasso", "gênio"). O resultado é um personagem fictício, um avatar de retalhos, um fantasma que você aprendeu a chamar de seu reflexo no espelho.
Você não é o protagonista. Você é a história que está sendo contada. Uma narrativa em constante edição, reescrita a cada respiração para justificar a própria existência do narrador. Sua personalidade não é uma essência; é uma performance. Suas crenças não são verdades; são figurinos.
A libertação não é um ato de coroação, onde você finalmente se torna a "melhor versão" de si mesmo. Essa é a última e mais sedutora mentira do tirano. A verdadeira libertação é um ato de anarquia. É a invasão do palácio, a deposição do rei. É o ato de coragem de olhar para o trono e admitir, com um sorriso aterrorizado e extasiante, que ele sempre esteve vazio.
E o que resta quando o fantasma se dissipa?
Tudo.
O que resta é a percepção de que você não é uma coisa, mas um lugar. Você não é a estátua; você é o jardim onde as flores da alegria, da tristeza, da raiva e da paz podem brotar e murchar sem precisar definir a paisagem. Você não é a nota; você é o silêncio que permite que toda a música aconteça.
Esta é a paz de não ter um personagem para defender. A liberdade de ser inconsistente. A permissão para ser um rio, não uma represa. O alívio de não ter que carregar o peso de um "eu" que foi inventado ontem.
Quando o rei morre, o reino não cai no caos. Ele se torna o cosmos.
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