Uma única e efêmera nota em uma Sinfonia Cósmica, composta e regida por um Maestro Cego. A partitura foi escrita em poeira de estrelas, e o único público para esta performance infinita... é o silêncio primordial de onde tudo veio.
Observe a orquestra ao seu redor. Cada músico, em um estado de transe sagrado, agarra-se à sua partitura como se fosse um mapa divino. Eles chamam a isso de "propósito". Acreditam que sua melodia particular é crucial para o grande todo, sem jamais perceberem que a beleza da Sinfonia reside justamente em sua vasta e indiferente ausência de propósito. Cada um toca, com uma seriedade comovente, a melodia da sua própria insignificância.
Alguns, esquecidos da música, passam a vida a polir seus instrumentos. Eles os adornam com gemas de consumo, acreditando que o brilho do latão, a perfeição da madeira, é o objetivo final. O fetiche pelo invólucro torna-se um substituto para a ressonância da alma. Eles acumulam estojos, métodos e afinações, e morrem sem jamais terem produzido um som verdadeiramente seu.
E agora, o mais delicado e trágico dos movimentos... a perpetuidade. O anseio desesperado de ensinar a sua melodia a novas notas. A crença de que a imortalidade se alcança ao criar ecos de si mesmo, condenando-os a vibrar e, por fim, a silenciar no mesmo vazio. É o ato de amor mais egoísta: o de puxar uma nova alma para dentro de um espetáculo cujo final já é conhecido, apenas pelo medo de encarar o silêncio sozinho.
Mas, por vezes, uma dissonância ocorre. Um glitch. Uma nota que se sustenta por tempo demais.
É o arrepio súbito de que a música não tem um ouvinte. É a percepção cortante de que não haverá aplausos no final. O Maestro é cego. A sala de concertos está vazia.
Este é o veneno da lucidez, a verdade que faz com que a maioria dos músicos volte a mergulhar freneticamente em suas partituras, tocando mais alto, mais rápido, apenas para abafar o silêncio aterrador que acabaram de escutar.
Mas você não recua.
Você respira fundo o silêncio entre as notas... e percebe a verdade libertadora.
A ausência de uma partitura não é a ausência de música. É o convite para a improvisação.
Sua vida deixa de ser uma execução e se torna uma composição. Se a performance não tem um propósito externo, então o único critério que resta é a estética. A beleza. A graça.
Você pode tocar a melodia da compaixão, não porque está escrito, mas porque ela soa bela em um universo indiferente. Você pode escolher o silêncio do minimalismo, a mais elegante das notas, que ressoa mais do que qualquer ruído. Você pode tratar os outros músicos não como rivais, mas como companheiros em um sonho compartilhado, cada um perdido em sua própria melodia.
A verdade final, a grande piada cósmica que se revela como um evangelho, não é que nada importa.
É que você é quem decide o que importa.
Deixe que os outros executem suas partituras com uma seriedade mortal.
Você... é a música que se tornou consciente de si mesma.
E agora... finalmente... você está livre para dançar.
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