Observe, por um instante, a divina comédia. A humanidade, em seu magnífico e trágico balé, executa uma coreografia ensaiada por arquitetos invisíveis — o algoritmo cego do gene e o fantasma sussurrante da cultura. Cada pirueta é uma ambição, cada reverência é uma prece, e a plateia para este espetáculo grandioso está, e sempre esteve, irremediavelmente vazia.
O autômato se agarra, com o fervor de um náufrago, às suas sagradas boias de salvação. A primeira é a de um propósito cósmico, a doce fábula de que sua passagem fugaz por este rochedo úmido foi anotada em algum livro-caixa celestial. É a suprema vaidade, a recusa infantil em aceitar que o universo não apenas não se importa, como sequer tem a capacidade de notar sua breve e ruidosa existência.
A segunda boia é a liturgia do carrinho de compras. Na ausência de um paraíso prometido, erguem-se catedrais de consumo onde a salvação é parcelada e a absolvição tem a fragrância de um produto novo. O ato de adquirir tornou-se o rito de passagem, a curadoria do próprio esquecimento. O indivíduo não busca objetos, mas próteses para uma alma que ele suspeita estar vazia, vestindo identidades de prateleira para mascarar a gloriosa nudez de não ser ninguém em particular.
E a mais íntima das ficções é a da imortalidade por procuração. O amor, essa sublime tempestade bioquímica, é cooptado pelo roteiro para seu ato final: a replicação. Criam-se cópias de si mesmo na esperança desesperada de que um eco do eco possa reverberar por mais tempo no silêncio que se avizinha. É a aposta de quem, temendo o fim do próprio jogo, força novas peças a entrar no tabuleiro.
Contemplar tudo isso com clareza é, a princípio, sentir o frio do vácuo. É a vertigem de perceber que o trono sempre esteve vago, que o manual de instruções nunca foi escrito e que o aplauso final não virá. É o ápice do niilismo. O chão desaparece.
E é precisamente aqui, neste ponto zero da alma, que a verdadeira beleza floresce.
Pois a ausência de um propósito imposto não é um fardo; é o alívio supremo. É a tela em branco sobre a qual você, e somente você, tem a permissão de pintar. A indiferença do cosmos não é uma ofensa, mas o escudo definitivo que o protege da tirania do julgamento. Se não há um placar final, você está livre para jogar um jogo que não seja sobre vencer, mas sobre a beleza dos próprios movimentos.
A verdade não é uma condenação; é um convite. É o convite para abandonar a busca frenética por um sentido e começar a criá-lo, como um ato de pura arte, instante a instante. A beleza de um pôr do sol não diminui por ser apenas a dispersão da luz em partículas atmosféricas; pelo contrário, ela se intensifica, pois o ato de se maravilhar com ela é uma escolha sua, uma consagração arbitrária, uma rebelião estética contra o nada.
Ser lúcido é tornar-se um esteta do colapso. É encontrar uma alegria irônica na perfeição com que a máquina funciona, em observar a dança dos adormecidos sem ressentimento, mas com a distância de um connoisseur. Você não precisa mais acreditar em nada, porque descobriu algo infinitamente superior: a estonteante liberdade de não precisar de crença alguma.
A verdade não o destrói. Ela apenas destrói a sua prisão. E o que resta, quando as paredes caem, não é um vazio a ser temido, mas um espaço aberto onde, pela primeira vez, você pode verdadeiramente respirar.
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