Crentes, aproximem-se. Mas não se aconcheguem demais, porque o que vou apresentar não é para corações fracos ou mentes complacentes. Vamos falar sobre o elefante gritando na sala de estar da fé: o sofrimento. Não o sofrimento abstrato, teológico, mas o sofrimento real, visceral, que dilacera corpos e almas, que esmaga a esperança e queima a fé até as cinzas.
Vocês nos apresentam um Deus de amor infinito, onipotente e onisciente. Um criador benevolente que zela por suas criaturas. Mas abram os olhos para o mundo real, o mundo que ele supostamente criou e governa. O que vemos? Vemos hospitais infantis cheios de crianças definhando em leitos de câncer, suas pequenas vidas consumidas por tumores implacáveis. Vemos campos de refugiados, onde a fome e a doença ceifam vidas em massa, onde a esperança é um luxo inatingível. Vemos vítimas de terremotos, tsunamis, guerras, violência, abuso... a lista é interminável, um catálogo nauseante de dor e desespero.
E qual a resposta religiosa para este festival de horrores? Ah, as desculpas... Elas são tão previsíveis quanto insultantes à inteligência e à moralidade.
"É tudo parte do plano de Deus." Plano? Que tipo de "plano" exige o sofrimento agonizante de crianças inocentes? Que "plano" se realiza através da tortura, da fome, da mutilação? Se este é o plano divino, então o arquiteto deste plano é, na melhor das hipóteses, um incompetente sádico, e na pior, uma entidade moralmente repugnante que não merece nada além de desprezo. Não me venham com a ladainha de "mistérios insondáveis". Mistério é uma palavra elegante para falta de explicação, para evasão intelectual. Se o plano é tão "insondável" que se assemelha ao caos puro e cruel, talvez seja hora de admitir que não há plano nenhum, ou que o "planejador" é profundamente falho.
"É um teste para a nossa fé." Teste? Deus precisa testar a nossa fé infligindo sofrimento? Isso soa menos como um teste e mais como uma chantagem emocional de um tirano inseguro. E que tipo de ser divino se diverte testando a fé de suas criaturas através da dor extrema? Se a fé precisa ser "testada" com o sofrimento de crianças, então essa fé é construída sobre areia movediça moral, e a divindade que a exige é indigna de adoração.
"É consequência do livre-arbítrio." Ah, o famigerado livre-arbítrio. A desculpa universal para tudo de ruim que acontece. Mas o livre-arbítrio explica um terremoto que destrói uma cidade inteira? Explica um câncer agressivo que ataca um bebê recém-nascido? Explica um parasita que evoluiu para cegar crianças? Não, o livre-arbítrio explica as ações humanas, não os desastres naturais, as doenças genéticas ou as crueldades da natureza. Usar o livre-arbítrio para justificar todo o sofrimento é uma desonestidade intelectual, uma tentativa desesperada de culpar a vítima e isentar o suposto criador de qualquer responsabilidade.
"Deus não nos dá um fardo maior do que podemos suportar." Outra frase piedosa, repetida ad nauseam, totalmente divorciada da realidade. Digam isso aos milhões que sucumbem ao sofrimento, que são esmagados pela dor, que perdem a sanidade e a esperança. Digam isso aos pais que perderam seus filhos, aos sobreviventes de genocídios, aos torturados, aos famintos. Essa frase não é um consolo, é um insulto. É uma banalização grotesca do sofrimento real, proferida por quem nunca experimentou a profundidade do desespero.
"O sofrimento nos aproxima de Deus." Sério? O sofrimento nos aproxima de um Deus que permiteesse sofrimento? Para muitos, o sofrimento afasta de qualquer crença em um poder benevolente. Ele revela a crueldade inerente de um mundo indiferente, ou a indiferença cruel de um criador que observa passivamente o espetáculo de dor. A ideia de que o sofrimento é um "atalho para a divindade" é uma perversão moral, uma glorificação masoquista da dor que beira o absurdo.
A verdade nua e crua é que as explicações religiosas para o sofrimento são fracassadas, moralmente falidas e intelectualmente desonestas. Elas são tentativas desesperadas de justificar o injustificável, de conciliar o inconciliável: a crença em um Deus bom com a realidade de um mundo terrivelmente mau.
Se querem realmente enfrentar o problema do mal, abandonem as desculpas esfarrapadas e as frases piedosas. Encarem a realidade de frente: ou o seu Deus não é tão bom quanto alegam, ou não é tão poderoso quanto prometem, ou, talvez, a resposta mais honesta seja que ele simplesmente não existe.
Porque no final das contas, a pergunta permanece, gritando em meio ao sofrimento do mundo: Como um Deus verdadeiramente bom e onipotente poderia permitir tudo isso? E as suas respostas, até agora, são um insulto à nossa inteligência e à nossa humanidade. Desafio vocês a fazerem melhor. Desafio vocês a oferecerem algo mais substancial do que evasivas e clichês. Porque o sofrimento do mundo exige mais do que orações e desculpas vazias. Exige honestidade, exige compaixão, e exige, acima de tudo, a coragem de questionar as próprias fundações da sua fé.
Tem lido Nietzsche?
ResponderExcluirSim e outros também.
ExcluirAchei q sim. Um matemático Nietzschiano kkk
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