A vida é como um revólver antigo: cada um de nós é um cartucho aguardando silencioso no tambor do tempo. Não escolhemos a arma nem o momento do disparo; a morte é o dedo inevitável que um dia aperta o gatilho e nos lança pelo mesmo cano estreito da finitude. Ainda assim, no breve voo entre o disparo e o impacto, existe algo estranhamente luminoso: a chance de orientar a própria trajetória. Alguns passam sem ruído, outros riscam o ar com força e deixam eco. O alvo pode ser incerto, o universo pode ser indiferente, mas enquanto atravessamos o ar temos a liberdade rara de viver com lucidez — de rir do absurdo, de criar, de amar, de compreender um pouco mais o jogo estranho em que fomos lançados. No fim todos encontramos algum leito — terra, memória, silêncio —, mas o caminho até lá pode ser percorrido com os olhos abertos, como quem aceita o destino e ainda assim decide que o voo vale a pena.
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