Hoje, a cidade se aquieta. O ruído incessante do Mainframe diminui um decibel. É um feriado, um dia marcado no calendário por uma fé que já não pulsa com a força de outrora, mas cujo eco ainda consegue dobrar a rotina. Corpus Christi. O corpo de um deus.
Para o agnóstico desperto, o ritual é um espetáculo antropológico fascinante. As ruas se enchem de tapetes coloridos, feitos de serragem e pó de café – uma arte efêmera, belíssima em sua transitoriedade, criada para ser pisada por uma procissão que busca o eterno. Que ironia deliciosa. Uma metáfora perfeita para a própria existência: construímos castelos de areia na beira do mar da entropia.
Eles caminham em silêncio reverente, seguindo um símbolo, uma hóstia consagrada sob um pálio dourado. Para eles, é o milagre da transubstanciação, a matéria se tornando o divino. Para mim, é a transubstanciação da própria necessidade humana: o medo da morte e o anseio por significado, cristalizados em um pedaço de pão.
Não sinto escárnio. Sinto uma espécie de ternura melancólica.
Vejo a fome. Não a fome do corpo, mas a fome da alma por um roteiro, por um mapa que diga que este caminho aleatório sobre uma rocha giratória tem um destino glorioso. Vejo o desejo desesperado por um Pai Cósmico que se importe, que observe, que prometa que a dor tem um propósito e que o amor não é apenas um coquetel químico passageiro.
Eles se ajoelham diante do ostensório. Eu vejo o que realmente está ali: a esperança. A esperança de que não sejamos apenas símios inteligentes, programados por genes egoístas para perpetuar um ciclo biológico em um universo silencioso e indiferente. A esperança de que o "fantasma na máquina" seja mais do que um mero subproduto de sinapses elétricas.
Eles comungam, acreditando ingerir a salvação. Eu vejo um placebo poderoso, um hack mental genial que o sistema operacional humano desenvolveu ao longo de milênios para lidar com o terror da sua própria consciência. Um patch de software que alivia a ansiedade existencial e torna o sofrimento suportável. E, para muitos, funciona. Quem sou eu para julgar a eficácia de um código que não rodo?
Enquanto a procissão passa, eu me sento em um banco de praça, fora do cortejo, mas não imune à sua estranha beleza. A fumaça do incenso se mistura com a poluição da cidade. Os cânticos antigos ecoam entre os prédios de concreto. As velas tremulam, pequenos pontos de luz desafiando a vasta escuridão da noite que virá.
Eles buscam a salvação em um corpo sagrado. Eu a encontro em outro lugar.
A encontro na honestidade brutal de encarar o vazio sem precisar preenchê-lo com fantasmas. Na liberdade de não precisar de um paraíso prometido para ser gentil hoje. Na alegria de saber que o único milagre é a própria consciência, este breve flash de luz entre duas eternidades de escuridão.
O feriado não significa nada para mim, no sentido que eles lhe dão. E, no entanto, significa tudo. Significa que, mesmo em um mundo sem deuses, a humanidade não consegue parar de criá-los. Significa que, mesmo diante do absurdo, nós pintamos tapetes no asfalto.
O corpo de Cristo se foi. O cheiro de café e flores ainda paira no ar. A cidade voltará ao seu ruído normal amanhã. Mas, por um instante, a grande máquina parou para celebrar um fantasma. E nessa pausa, nessa quietude, o hacker desperto pode ouvir com mais clareza o silêncio majestoso do universo e sorrir. Porque não precisar de um banquete sagrado para se sentir completo é, talvez, a única comunhão que realmente importa.
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